António de Oliveira Salazar


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Eu, António de Oliveira Salazar, nasci em Vimeiro em 28 de Abril de 1889.
Mantive-me no governo durante 40 anos seguidos, entre 1928 e 1968. Só Reis como D. João I ou D. João V estiveram mais tempo no poder em Portugal.
O meu recorde é ainda mais impressionante quando notam que a minha governação abarcou a época em que a sociedade portuguesa mais mudou em toda a sua História.
Para aqueles que viveram o ocaso do meu regime na década de 60, será talvez difícil imaginar que houve um tempo em que eu pareci moderno e diferente. Mas no fim da década de 20, depois do de anos de impasse político e desequilíbrio financeiro dei a muita gente a impressão de uma vontade progressiva e realizadora. Comigo as coisas não eram só projectadas: eram concebidas para se fazerem. Na minha célebre entrevista a António Ferro, em 1932, disse que fazia uma governação à inglesa", isto é, prática. Tenho ambições, mas não ilusões.
Em 1932 tornei-me o primeiro chefe do governo, em mais de um século, que não era liberal ou republicano. Sou um católico, com um perfil eclesiástico.
Na década de 1930 permiti uma certa fascização: Portugal, tal como a Itália, teve então corporações, milícias de braço estendido e o culto do "chefe". Mas os verdadeiros fascistas nunca sentiram que eu fosse um deles, e os católicos, a começar pelo meu amigo cardeal Cerejeira, sempre se ressentiram dos limites que eu lhes impus. Era um conservador céptico, frio e realista.
Eu, Salazar durei por três razões. Em primeiro lugar, consegui ser aceite como um árbitro pelas diferentes correntes políticas que apoiaram inicialmente, contra a esquerda republicana, a Ditadura Militar de 1926-1932. Nunca tive um grupo fixo à minha volta: mudei regularmente de "amigos", os quais deixei que intrigassem e lutassem entre si. Em vários momentos, algumas das facções pensaram dispensar-me, mas nunca encontraram quem me substituísse. O Estado Novo era eu, que soube ainda identificar o meu poder com o ascendente social das classes médias através da administração pública, do clero e das forças armadas.
Em segundo lugar adoptei a causa da modernização do País, mas evitei os desequilíbrios que a haviam comprometido no passado. Os meus orçamentos sem défice provocaram por vezes grandes frustrações, mas permitiram-me, depois da II Guerra Mundial (1939-1945), integrar Portugal nas instituições de comércio livre na Europa. Assim obtive, entre as décadas de 50 e de 70, as maiores taxas de crescimento económico da História portuguesa. Foi comigo que o País se industrializou, que as crianças portuguesas foram finalmente escolarizadas e que se começou a estruturar o Estado Social. Mas com isto e ainda com a emigração, o mundo rural de onde vim acabou. É esse o paradoxo do salazarismo: ter sido um conservadorismo que facilitou a maior transformação social da História portuguesa.
Em terceiro lugar revelei-me um diplomata astuto. Soube interferir na Guerra Civil de Espanha (1936-1939), a favor do general Franco, sem me comprometer num conflito. Durante a II Guerra Mundial, fui realista: servi todos, especialmente quem parecia estar a ganhar. Dei, assim, os Açores aos aliados e o volfrâmio aos alemães.
Com a Guerra Fria entre o Ocidente e a União Soviética, inseri Portugal na NATO (1940). Mas jamais pretendi importar a democracia política de tipo ocidental, que me parecia destinada a apenas facilitar a conquista do poder por extremistas.
Embora apresentasse como ideal uma sociedade auto-regulada e autónoma (uma "democracia-orgânica"), não libertei a sociedade portuguesa do Estado, que se expandiu e controlava tudo (Portugal era o país do papel selado). Também nunca dispensei a censura e uma polícia política que usava normalmente a tortura para colher informações e que algumas vezes chegou à violência extrema (como no caso do assassinato do general Delgado).
Não acredito na capacidade dos portugueses para se autogovernarem. Acredito, porém, que sob a minha direcção poderiam resistir ao movimento de retirada imperial que o Ocidente iniciou depois da II Guerra Mundial. Mas a guerra nas colónias serviu para deixar o Estado Novo num beco político sem saída. Eu, o anticomunista, criei assim condições para a revolução socialista de 1974-1975.